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Em recuperação

Depois de dois espectáculos com febre e gripe, estou no estaleiro.

Votem em branco

Não se abstenham. Votem. Mas votem em branco. Mesmo. Porque só isso marca uma posição. Em branco.

Marinho Pinto Forever

O título acho que resume tudo.

É o que dá a falta de profissionalismo


Os Jogos Olímpicos foram celebrados em Portugal com uma prova nocturna de tiro e Lisboa assistiu ao desaparecimento de dois potenciais empregados de mesa, com direito a transmissão televisiva em directo para todo o país.
Foi um desfecho dramático para esta novela policial. Curiosamente, numa altura em que tudo parecia estar bastante equilibrado: reparem que o banco é verde, os reféns estavam brancos de medo, os assaltante com um nervoso amarelo, tudo isto banhado pelas luzes azuis da polícia e conferindo assim as tonalidades da bandeira canarinha ao acontecimento.
Mas, mesmo com a decoração a rigor, a festa acabou à boa moda da Quinta da Fonte, com a única diferença de que desta vez as balas acertaram em alguém, com os GOE a dar show de samba.
É o que dá quando amadores tentam fazer o trabalho de gente crescida. Não é preciso ser europeu diplomado para saber que é preciso alguma preparação e dedicação para se fazer um assalto como deve ser. Não é assim, por dá cá aquela palha, que se entra numa dependência bancária com armas na mão - costuma ser um hábito mal compreendido.
Aliás, tudo leva a crer que estes dois cavalheiros de sotaque brasileiro, além da falta de profissionalismo, deviam pouco à inteligência.
Primeiro, decidem assaltar um banco, o que por si só já é um pouco imbecil. Os sítios onde habitualmente se movimenta muito dinheiro costumam ter as suas devidas protecções.
Segundo, assaltam um banco mesmo no centro de Lisboa, pertinho de um estabelecimento prisional e a dois minutinhos das principais forças policiais portuguesas. Entre um BES na capital e uma Caixa Agrícola num vilarejo de província guardado por um jipe UMM da GNR, creio que a escolha não é difícil.
Terceiro, assaltam um banco em Lisboa numa das mais movimentadas zonas e conseguem escolher o mais pequeno e insignificante da rua. Qualquer observador com dois dedos de testa perceberia imediatamente que seria mais rentável assaltar a Churrascaria Valenciana, que fica do outro lado da rua, do que aquele mini-balcão do BES que tem tamanho para ser alvo de chacota de algumas lavandarias.
Estes dois jovens, que podiam a esta hora estar felizes e contentes a tentar impingir TV Cabo na Praça do Comércio, acabaram por perceber da pior forma que neste país cada vez há menos espaço para amadores, especialmente com Bolonha aí à porta e tantos cursos profissionais a decorrer.
Queriam maminha, acabaram em picanha.
Ficaram também a saber que, em Portugal, autocarro e guarda-redes são ônibus e zagueiro, mas bala não é rebuçado.

Curiosamente, como nota de rodapé, fica uma observação à cobertura mediática da situação. A SIC foi o único canal que não arredou pé da transmissão em directo, com a RTP desligada da realidade e a TVI alternando entre bandarilhas da tourada e uma espreitadela em busca de sangue. Disseram-se as maiores palermices, desde "já chegou a carrinha do INEM" a "foram duas explosões que eu ouvi mas afinal parece que foram três disparos", mas o curioso mesmo é que, com tantas câmaras ao barulho e repórteres nas varandas, quem conseguiu as melhores imagens... foi a edição on-line do jornal Público. Ora espreitem lá o vídeo.

INEM'creditonoquetou'ouvir

A SIC teve a coragem de colocar ontem no Jornal da Noite uma reportagem daquelas que raramente se tem a oportunidade de ver; de certa forma, é uma maneira de se redimirem das reportagens monocórdicas da Joana Latino. Adiante.
Coragem, porque além da sensibilidade da temática, a reportagem consiste em quase um quarto de hora de apenas som: uma gravação de uma chamada para o INEM e do INEM para os bombeiros voluntários locais.

Ambos os telefonemas são inacreditáveis, e nenhum por bons motivos.
Começando no primeiro, em que um fulano diz, com uma tranquilidade invejável, que o irmão caíu. Que venha a guarda, que ele está morto.
Mas a partir daí, a coisa começa a entrar numa comédia absurda.
Com um bombeiro que não sabe o que há de fazer, uma operadora do INEM que mantém a calma onde qualquer um de nós perderia a cabeça (apesar de claramente não acreditar no que lhe está a acontecer).
Não adianta grandes explicações.
Vejam e ouçam com atenção.



Adoro a parte do:
INEM: “Quanto tempo demora a chegar ao local?”
BVF: “É só ir buscar a ambulância e arrancar”

E depois não me venham dizer que é um problema de meios.
Isto é gente mal preparada e muito incompetente, é o que é.
E isso é um problema de formação, não de aquisição.

Coisas da Publicidade...

...um amigo meu aproveitou a Semana dos Bebés do Continente e comprou quatro, incluíndo uma menina de seis meses.


O Banif gastou 20 milhões de euros para mudar a imagem corporativa. Agora tem como símbolo o centauro, que é como quem diz "o nosso banco é tão credível como as figuras mitológicas", além da cor púrpura à qual eles chamam indigo. O novo slogan do banco é "A força de acreditar". Na verdade, é preciso ter força para acreditar que gastaram 20 milhões nisto.
No comunicado de imprensa, em que explicam alegremente esta operação estética, os senhores do banco açoriano dizem também que este rebranding, que começou com um teaser, está a ser transmitido num mix de comunicação num formato mais trendy e eye-catching, para lá da comunicação outdoor.
Fico feliz por eles.
E, se eles conseguissem fazer isto tudo em português, mais feliz ainda ficaria.

ADENDA: Onde em cima se lê "açoriano", deve-se ler "madeirense"

15 dias sem fumar

E já tenho menos vontade de matar pessoas.
Um bocadinho menos.
Digamos que esmoreci no meu instinto assassino.
O que é uma pena.
Anda aí uma data de gente a pedir que lhe façam a folha.
(ver post anterior)

Internet for Dummies


Ando verdadeiramente preocupado com a quantidade de pessoas que me enviam e-mail's como o acima citado, prometendo-me grandes fortunas, I-Pod's ou até mesmo a Felicidade Eterna só pelo simples facto de passar o mail a todas as pessoas na minha lista de contactos.
Estou deveras preocupado, porque estou convencido de que toda esta gente que ainda envia estas coisas está por sua vez convencida de que existirá uma franca hipótese (apesar de remota, franca) de vir mesmo a acontecer.
Tomemos como exemplo o referido comunicado.
Começa logo bem, com o sugestivo título, logo a soar a antítese, de "Borla da Microsoft".
Basta realçar algumas partes do mail para se perceber a veracidade da coisa.
Ora reparem:

Habitualmente, não costumo enviar/reencaminhar este tipo de mensagem do tipo'passa a palavra', mas esta é muito curiosa... A mensagem que recebi é da parte de uma advogada amiga de uns amigos chamada Séverine e ela garante que esta cena é a valer.
Ah, ora aí está! Nada melhor que uma amiga de uns amigos de um amigo amiga de alguém para confirmar seja o que fôr! E que, ainda por cima, é advogada!!! Trés bien!!!
A seguir, eis a justificação científica:

Aparentemente, Bill Gates está a partilhar uma porção da sua fortuna.

(claro que sim, faz sentido)

O MS WINDOWS continua a ser o sistema operativo mais utilizado, e isto não é mais do que um teste para a Microsoft e a AOL avaliarem isso pelo menos de envios/reenvios deste mail. Quando reencaminhar este mail, no caso de ser um utilizador de MS Windows, a Microsoft fará um seguimento dos reenvios durante 2 semanas.

Ora aí está! Um teste!!! Para quê verificar as facturas de vendas de sistemas operativos quando podemos fazer "teste de envio de mails" e dar dinheiro a pessoas de todo o mundo?
Mais:

...por cada pessoa que reenviar este mail, a Microsoft pagar-vos-á 245 EUROS (independentemente do emissor)? Mais, por cada pessoa que reencaminhe o mail após vocês lho terem enviado, a Microsoft pagar-vos-á 243EUR . Após a 3S pessoa que receber o mail, a Microsoft pagar-vos-á 241 EUROS.Em duas semanas, a Microsoft entrará em contacto convosco para confirmação de endereço postal e envio do cheque.

Hummmm, não sei, será que é mesmo assim...?

Ela ainda acrescenta: (LEIAM!)

Estou a ler.

Eu julgava que isto era uma burla, mas duas semanas após ter recebido e reencaminhado este mail, fui contactada pela Microsoft para dar o meu endereço. Recebi um cheque no montante de 24800 EUR. Deve responder antes que este teste termine, pois se alguém se pode permitir isto é bem o Bill Gates. Para ele, trata-se de uma despesa de comercialização/marketing.

Ah, então é mesmo, mesmo, mesmo verdade! Vou já reencaminhar!!!

É por estas e por outras que eu acho que as câmaras de gás eram uma excelente ideia. Estavam era dirigidas ao público errado.
Rais'parta...

E depois ainda dizem com ar espantado que há muita gente que nunca usou o correio electrónico... Para quê? Para isto?

Contagem

Sete dias sem fumar.
Continuo com vontade de matar alguém e não tenho grande paciência nem para as pequenas merdas do quotidiano.
Olho para as pessoas que supostamente deixaram de fumar e que aparecem nas campanhas, sorridentes, com ar vitorioso, limpo, de quem ganhou a batalha... Os cabrões sorriem de quê? Se calhar não fumavam o mesmo que eu. Aparecesse agora aqui um fotógrafo a chatear-me para uma foto de campanha e dava-lhe uma cabeçada.
É assim que me sinto: violentamente mais saudável.

Servia para cobaia científica

Estou há quatro dias sem fumar e sinto-me...

...capaz de matar alguém.
Mas tenho a certeza que é desta(que deixo de fumar, não que mato alguém).

Policarpo polifónico

O Cardeal Patriarca de Lisboa, José Policarpo, afirmou na homilia de Natal que o afastamento de Deus, ou o seu esquecimento e negação, constituem "o maior drama da humanidade".
Segundo este cavalheiro, "Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade, que tiram todo o sentido ao Natal, que é a exultação e o grito de alegria e de esperança que brotou do reencontro do homem com Deus"
Ou seja, segundo as palavras deste opinion-maker adornado a ouro e habituado às regalias que o seu cargo lhe oferece no polvo católico, esqueçam os conflitos bélicos gerados pela fome de petróleo e pela discussão de que o meu deus é melhor que o teu, além da pobreza, da fome, da SIDA, aquecimento global e até mesmo o preço da PS3.
Esqueçam.
Segundo Mister Policarpo, o ateísmo é o maior drama da humanidade.
Que é como quem diz, estão a mexer no meu queijo.
Mais interessante ainda é a leitura nas entrelinhas de que o ateísmo é a perda de esperança. Esse é um argumento que os teístas estão fartos de usar, como se fizesse sentido. Mas já dizia o outro, a alegria de um crente está para um ateu como a alegria de um bêbado está para um sóbrio. Adiante.
Pelo meio, este macaco da selva católica ainda teve o descaramento de meter o dedo onde não é chamado, fazendo questão de dizer que "não é a ciência que redime o ser humano", numa tentativa curiosa de afastar os seus crentes do pensamento científico...
Enfim. No meio do bolo-rei da televisão natalícia, eis a fava.

Um dia, algures no futuro, haverá gente a olhar para esta gravação e a rir da mesma forma que hoje nos rimos quando vemos os xamãs das tribos aborígenas a dançarem aos deuses para que venha chuva. E nessa altura, alguém há de colocar a pergunta: como é que aqueles tipos conseguiam ter naves espaciais, comunicações digitais e sabonetes líquidos... e ainda aturavam aquilo?

Posta 795

Desperdiçamos tudo demais.
O tempo escorre-nos pelos dedos e olhamos sempre para a mão errada.
Desperdiçamos tempo, energia e possibilidades.
Andamos perdidos a maior parte do tempo e só nos apercebemos disso quando o tempo já passou.
Trabalhamos para ganhar dinheiro para manter uma vida em que possamos continuar a trabalhar. É mais que um círculo vicioso, é um círculo imbecil.
Diziam-me no outro dia que trabalhar é anti-natura.
Pois é.
E, pior que isso, é normalmente castrador.
O ser humano comum do chamado primeiro mundo (e nem vamos para outras zonas do hemisfério sob risco de desespero) passa em média 8 horas por dia, sete dias por semana a esforçar-se para garantir um só dia de 8 horas de lazer. Vendo as coisas até numa perspectiva mais optimista, estaremos sempre a falar de 40 horas de submissão ao sistema para garantir entre 8 a 16 horas de suposta liberdade individual. 4 para 1, ganha o sistema.
Dirão alguns, claro que é assim, senão toda a sociedade se desmonoraria como um baralho de cartas. Claro que sim, e dou-me por conformado com essa obrigatoriedade.
Mas o que me preocupa não é o finalmente, é o entretanto.
Porque, entretanto, enquanto vamos para casa e nos preparamos para regressar ao emprego, desperdiçamos. Demais.
Ainda recentemente publicava aqui neste blog uma frase belíssima: "A vida não é sobre descobrirmos a nós próprios, é sobre criarmos a nós próprios." Criar. Construir. E cada instante que passa é uma hipótese para essa construção e, na maioria das vezes, na maioria dos casos, é uma hipótese desperdiçada. Ou muito pouco aproveitada.
Perdidos?
Deixem-me ser mais claro, e a melhor forma para isso é recorrer a exemplos.
Exemplo um.
Um conhecido meu diz-me que tem pena de não ter tempo para ler. Passado pouco menos de 15 minutos, diz-me que tem seguido com entusiasmo várias séries televisivas. Acrescenta logo de seguida que, na noite anterior, por falta de programação devida na televisão, foi passear na net e descobriu um site fantástico sobre miúdas em bikini. E aparentemente molhadas. I rest my case.
Exemplo dois.
Como sabem, estou desde há mais de um ano a contribuir com um grupo de comediantes cá na zona, O Sindicato. A ideia é simples: conjugar esforços para permitir que o stand-up ganhe força nos chamados circuitos de bares, ao mesmo tempo que permite a troca de experiência entre comediantes. Á partida, um potencial explosivo. Imaginem o que é juntar os melhores músicos de uma zona e permitir que trabalhem juntos, seria mais ou menos essa a premissa. Resultados? Se é certo que a evolução começa a ser visível, que o grupo tem vindo a ganhar força, também é certo que é nas melhores alturas que a natureza humana mostra as suas falhas. O grupo não atinge um quarto sequer do seu potencial esperado: a cada dois passos para frente eis que surge um para trás, ora por pequenas birras, faíscas de egos (não chegam a ser conflitos), apatias incompreensíveis e ausência de cooperativismo. Por mais que se tente passar a mensagem, poucos são os que percebem que para haver sucesso em grupo tem que haver sacrifício individual. Ou só percebem quando convém. A fórmula que poderia dar início a um dos maiores e mais prolíficos grupo de humor deste país arrasta-se num estado de evolução lenta e mastigada. Até hoje, raras são as vezes em que algum dos elementos puxa pela corda, promove uma ideia ou instiga um encontro para procurar novos caminhos. Pelo contrário - as únicas vezes em que se promove encontros do grupo é para resolver problemas ou aliviar a dor de cotovelo de alguém.
Mas não tomem este exemplo como amargo de boca, porque apesar de o ser, serve apenas como exemplo, e se tivesse que fazer o mesmo em relação à produtora onde trabalho seria certamente um texto semelhante.
É comum à maioria das organizações, este estado de falso conforto e conformismo.
Adiante.
Exemplo três.
Já para não falar do pessoal que mora num raio de 5 km's da minha casa, tenho que vos falar de malta que mora a 300 km. Malta com trabalhei várias vezes em palco e fora dele, com partilhei expectativas e desilusões e que, apenas por uma distância (de merda) se deixa cair num esquecimento. Chateia quando nos apercebemos que deixámos de falar com tanta gente e que a culpa nunca é solteira.

Andamos demasiado entretidos com futilidades, hábitos e círculos viciosos.
Esquecemo-nos com excessiva frequência que na maioria dos casos a única coisa que nos impede de avançar é a ausência dos nossos próprios passos.
Não se enganem: estamos em tempos de mudança. E podemos fazê-la, em todos os campos, em todas as áreas, desde uma insignificante comédia de palco a uma neurobiologia, de um quadro numa parede à economia mundial.
Sabemos que estamos a dar cabo do planeta, fazemos ar de triste e seguimos sem mudar.
Culpamos os outros, sempre os outros.

A mudança, mudança de vida, mudança de mentalidades, mudança de mundo, está onde sempre esteve - na nossa mão. E continuamos a olhar para o umbigo.
É urgente olhar para as nossas próprias mãos e dar-lhes um uso significativo.
Se nos impulsionarmos a nós próprios para a frente, arrastaremos sempre alguém, até arrastarmos o mundo.
Falta-nos impulso.
Falta-nos o desconforto da descoberta.
Estamos convencidos de que estamos a evoluir mas continuamos a ver o mesmo filme, sentados na mesma cadeira.
Falta-nos mudança, sede, fome, garra, pressa.
Falta-nos ter mais medo da morte.
É urgente ler mais. Escrever mais.
É sempre urgente ligar a alguém e dizer lembrei-me de ti.

É urgente criar acção para que haja reacção.

Temos que fazer mais, mais alto, mais forte.
Ler mais livros, ouvir mais músicas, fazer mais amor, correr mais depressa, sorrir mais vezes. Perder o medo de caír no rídiculo, saber que tudo é efémero, compreender que uma hora pode valer um dia, que um dia pode passar como uma hora, mastigar crú, bater no fundo, magoar a pele, ferir as mãos, olhar de frente para o sol, abraçar, beijar, abraçar, empurrar.
Temos que ouvir mais pessoas. Temos que provar coisas diferentes, queimar a língua, dançar à chuva, apanhar constipações, aprender as regras, quebrar as regras, criar as regras, criar novas réguas, tirar novas medidas, construir novas bússolas e perder o norte. Temos que sair do conforto da casca e dar tudo por tudo e saber que vai valer a pena mesmo que não funcione porque não há nada mais saboroso do que dar tudo por tudo.

Temos que sentir mais o medo da possibilidade de errar.
Temos que errar mais. Muito mais.
É a única forma de garantir que estamos a evoluir, a tentar e a descobrir.
É a única forma de garantir que que estamos no bom caminho.

Esmeraldinha, futura psico

Tenho cá um palpite que quem decidiu o veredicto sobre o caso Esmeralda foi uma Junta Médica.
As Juntas Médicas, para quem ainda não está a par, são grupos de cidadãos que se dedicam a desafiar a lógica e o bom senso; uma espécie de Alberto João Jardim no plural.
Estou mesmo a imaginar a conversa entre estes cavalheiros:
"- Sabes o que é que era engraçado? Se em vez de darmos a miúda ao sargento, a mandássemos para o pai biológico! Essa ninguém estava à espera e, mais a mais, nunca gostei de tropas... Espera, já sei! Sabes como é que dávamos mesmo cabo da catraia? Se a obrigássemos a deixar a família (vais gostar desta!) mesmo a seguir ao Natal!
- Eh pá, tu és demais! Essa ainda é melhor do que quando disseste àquela professora que três cancrozitos não eram motivo para não trabalhar!!!
- Eu surpreendo-me! Mal posso esperar para ver a miúda daqui a uns anos... Bem, como é, almoçamos?"

Darwin falou sobre isto, não falou?

"Um menor de 14 anos, residente em Macinhata, Vale de Cambra, terá praticado automutilação parcial, alegadamente incentivado por uma página alojada na rede social on line Orkut"

Segundo as notícias, este rapazinho estava também a combinar com outro rapazinho um suicídio colectivo.
As forças policiais interviram, preocupadas, e fala-se em quase tragédia.

Meus senhores:
Isto não é tragédia, é estupidez.

A malta quer fazer automutilação e suicídios colectivos?
Não é culpa do sistema: é a natureza a encontrar formas de auto-selecção.

Com mestrado em Hi5, não?

Ele há coisas do catano.

Uma tal de Manuela Furtado, senhora que desconheço e que tem como endereço de e-mail o original catatua@kanguru.pt (diz tudo, o endereço), faz questão de me enviar de tempos a tempos informações preciosas sobre oportunidades únicas.
Não é spam, é ridículo.
Desta vez, enviou-me um mail a promover, e passo a citar, um "Curso SUPERIOR de Internet".
Isso mesmo.
Superior.
Internet.
Ena.

É claro que fiquei louco de expectativa!
Seria agora que conseguiria finalmente domar este universo infernal que é a World Wide Web, a Rede do Mundo Largo?

Claro que cliquei no linque.
Do mail, passei para o meu explorador de janelas, onde dei de caras com uma folhinha de inscrição, onde me pediam os meus dados - nome, mail, endereço e telefone.
No entanto, nem uma única referência (esquecimento, provavelmente)sobre a Universidade (é superior, não é?) que presta este serviço à humanidade.

Não satisfeito, decidi ler os termos da "Política de Privacidade e condicões", uma ligação no fundinho da página. E bingo.
Fiquei a saber que este inovador e prestigiado curso de 4 meses (superior na qualidade mas coisa rápida, como se vê), é uma fantástica oferta da Esine.
Para quem não sabe, a Esine é uma comuna italiana da região da Lombardia, província de Bréscia, com cerca de 4.707 habitantes; mas é também uma empresa de Alfragide, pioneira do ensino à distância, líder em cursos como "Windows e Office XP" e "Prevenção de Riscos Laborais".
Mais: fiquei também a saber que este curso de internet iria ajudar-me a "Saber transformar o computador numa fonte dinâmica de descobertas, conhecimentos, aprendizagem, informação, comunicação, diversão…é vital para enfrentar o mundo do trabalho, a nível pessoal, doméstico…sendo, definitivamente, também um modo de alcançar uma superior qualidade de vida."
Bastaria para isso inscrever-me e ceder os meus dados pessoais, e, em coisa de 4 meses, serei o Einstein da Internet.

Ena.
Será que têm mestrado em Hi5, ou em sites ainda mais interessantes, como o "gulosinhassafadas.com"?
Espero bem que sim.

Ele há coisas inúteis do catano.

Papa aqui a ver se eu deixo

O papa Joseph Ratzinger, capo di tutti capi, fez este fim-de-semana críticas severas aos bispos portugueses que se deslocaram ao Vaticano (será que voaram low-cost?). Apesar de alguns elogios (especialmente à medieval concordata que o Estado voltou a assinar com a Igreja), o papa lá deixou escapar uns quantos dedos apontados à Igreja Católica portuguesa.
E tem razões de sobra para o fazer. No nosso país, a taxa de adesão a esta multinacional religiosa é cada vez mais baixa. Há menos baptismos, menos comunhões, menos fiéis nas igrejas e até mesmo menos padres: por cada dois que morrem apenas um é "admitido ao serviço", o que é um balanço francamente animador para pessoas como eu. Apesar dos investimentos imobiliários e da pressão social, a verdade é que a igreja está a perder terreno.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Jorge Ortiga, reconheceu a dificuldade da hierarquia em lidar com o crescente abandono da fé pela população portuguesa: "O povo português continua, na sua grande maioria, a afirmar-se católico embora reconheçamos que os ventos do relativismo e indiferentismo exercem uma grande pressão, provocando atitudes e opções ambíguas e, em alguns casos, contraditórias", afirmou o bispo português, denunciando a existência de "pequenos grupos, imbuídos dum espírito laicista, que têm pretendido suscitar possíveis conflitos".

Gosto especialmente da noção de pequenos grupos que andam por aí a "armar barulho" e da tentativa de passar a mensagem de que o abandono da fé é uma questão de "relativismo e indiferentismo".
Engana-se, o senhor Ortega (nome familiar, não?).

O que leva ao abandono da fé não é o indiferentismo, pelo contrário, é a consciencialização.

Desde que Darwin publicou "A Origem das Espécies", até à tomada de posição de nomes como Carl Sagan, Albert Einstein e outros, a supremacia da razão e da lógica tem-se revelado uma caminhada difícil.
Apesar de cada vez mais existirem pessoas não-crentes e de, cada vez mais, sentirem que o podem dizer sem correr o risco de acabar na fogueira em praça pública, o certo é que não chega a ser um movimento. Isto acontece porque a maioria dos ateus não anda por aí a espalhar aos quatro-ventos que não acredita em deus, anjinhos da guarda e santos milagreiros, porque aparentemente não faz grande sentido, e é fácil de explicar porquê. A lógica é mais ou menos esta:
Quem não acredita que existem fadas no seu quintal não sai à rua a dizê-lo. Mas, por outro lado, quem acredita que no seu quintal se escondem seres mitológicos fará todos os esforços para convencer pelo menos os vizinhos.
Esta é a barreira que separa os ateus dos crentes, mas é também um dos maiores impedimentos à evolução natural do pensamento humano.
É preciso unir esforços e sair à rua dizendo claramente que é permitido falar e criar a discussão sobre religião. Ao contrário do que a Igreja diz, podemos falar sobre isso e não se trata de silenciar a coisa ao oportuno dogma da fé.
Falar sobre a existência de Deus é tão válido como falar sobre a existência do monstro de Loch Ness (apesar de que este último leva a vantagem de ter pelo menos uma foto tirada).
E falar sobre as coisas é o princípio para se esclarecer as pessoas e clarificar a sociedade, e dar o primeiro passo para a eliminação de um dos maiores cancros que corrompe o planeta.
Temos que forçar os ateus a encararem os deístas e teístas no terreno da argumentação, porque é a única forma de eliminarmos mais um mito da história da humanidade; um mito que ainda hoje subjuga milhões de pessoas, desvia milhões para usufruto próprio e está na origem de quase todos os conflitos armados humanos.

O papa tem toda a razão em estar preocupado. Como se já não bastasse termos acabado com a caça às bruxas e a Inquisição, a humanidade ameaça agora atacar a raíz do mal.

P.S.:
Resposta a um mail de um visitante deste blog

Caro F.,
obrigado antes mais pela agilidade com que respondeste a este post (8 minutos?) e pela atenção de a teres enviado como correio electrónico e não como "comentário de ódio". Permite-me que responda ao teu mail ponto-por-ponto, além de que também publicarei a resposta no meu blog, por a considerar elucidativa a todos os outros leitores.
- Não, não creio que deva ter vergonha de criticar "a maior instituição religiosa do mundo". Primeiro, porque não é (conheces o Dalai Lama?) e, segundo, porque tamanho não é documento;
- O facto de ter muitos adeptos não significa tem razão e, sim, acho que "milhares e milhares de portugueses" é que estão errados. Relembro-te que o nazismo também conseguiu muitos adeptos e isso não faz dele uma doutrina correcta;
- se minha atitude "insulta as pessoas de fé" e "vai contra" as minhas "responsabilidades de pessoa com imagem pública" (lol), é fácil: não leiam. mudem de canal. Da mesma forma, também considero insultuoso o que qualquer organização religiosa promove, da mesma forma que tu próprio também considerarias insultuoso se alguém agora formasse uma igreja ao Deus-Lua ou ao Deus-Telemóvel (com a vantagem de serem dois deuses que pelo menos existem fisicamente);
- concordo que a existência de Deus não pode ser cientificamente provada, mas isso não faz com que exista. Também não consigo provar que não existem dragões voadores, mas sei que não existem, quanto mais não seja pela lei da probabilidade. E, pelo menos no terreno da probabilidade, posso discutir a existência do teu Deus;
- se houver inferno, terei todo o gosto em arder lá, como referes. Afinal de contas, não vou querer passar a eternidade longe de todos os meus amigos.

CM

O que levará...

...um macho adulto heterossexual, em plena posse do seu juízo, capaz de tomar decisões por si só e com total capacidade mental, autónomo o suficiente para não só passar num exame de condução como ainda circular em via pública sem atentar contra a vida de ninguém, a pendurar no retrovisor do seu automóvel um par de ponpons rosa em forma de dados?
Na estrada, há muitas coisas que me ultrapassam.
Além de veículos, claro.

Jogos Olímpicos 2008

A China tem vindo, de facto, a preparar-se para os Jogos.



Brilhante campanha da Amnistia Internacional. Se estamos unidos pelas Olimpíadas, também devíamos estar pelos direitos humanos.

Pedro Alpiarça


(1958-2007)
Estive ontem na Sociedade Guilherme Cossoul para, juntamente com dezenas de outras pessoas, prestar homenagem a Pedro Alpiarça, numa noite de afectos, reencontros e calor humano.
Foi no fim de Setembro que o Pedro mais uma vez surpreendeu tudo e todos e voou para outros destinos. Uma morte trágica, inesperada. Teatral, até.
Dos que ali estiveram ontem, no familiar carinho da Cossoul, eu sou provavelmente o que menos tempo passou na companhia do Alpiarça. Dele guardo a memória de conversas densas mas despretensiosas, de um ser humano afável e sempre acessível, assim como de um actor com capacidades bem maiores do que para bonecos em séries de humor televisivas. Não é fácil, a vida de actor em Portugal.
Guardo-lhe o sorriso. Se há coisa que o Pedro espalhava, era o sorriso.
Mas agora, analisando os factos e revendo a história, percebo que era um sorriso que escondia muitos outros sentimentos, e se calhar nem todos tão felizes.

Vivemos num adiar constante.
Continuamos convencidos que amanhã ainda todos estaremos cá.
Adiamos constantemente aquele abraço, aquele tempo para ouvir.
Achamos que fazer uma pausa na nossa rotina para estar com alguém, só por estar, é uma aparente perda de tempo.
E caímos num erro de oratória constante: em vez de perguntarmos "Como estás?", avançamos sempre com um despachado "Tudo bem?". E esquecemos que, em ambos os casos, uma pergunta deve sempre ter uma resposta.

Para os que ficam, o relógio ainda tem corda.
Aproveitemos os minutos que restam.
Não vai rodar para sempre.