Esta eu não resisto a partilhar.
Para quem não viu, eu fiz há uns tempos atrás um post sobre o ateísmo, a propósito de uma reportagem da Wired Magazine. Ora qual não foi a minha surpresa quando hoje descubro um comentário sobre o post, que decidi expôr aqui. Porquê dar-lhe atenção? Porque é o reflexo de uma atitude que me irrita. Serve de exemplo.
Vamos a isto:
"Sr. Contente said...
Não, não sou religioso. Nem crente sou. Sou, no máximo, agnóstico. De facto, existem muito fundamentalismos. Mas penso que culpar a religião de todos os males do Mundo é ser-se ignorante. Muito ignorante. É conversa oca e, permitam-me, pouco inteligente. Exacto, pouco inteligente, que é o que os arrogantes dos atus chamam aos crentes. Já conheci crentes modestos. Ateus? Não, são sempre autoritários, armados aos cucos. Esse Dawkins deve estar louco: eliminar a fé? Como? É como eu querer eliminar a paixão. São coisas não-materiais. Ridículo. Carlos Moura, vai ler livros, pá. Ou ver vídeos no You Tube, que é o que agora toda a gente faz. "
Ehehehehe... Permitam-me responder passo-a-passo a esta
triste observação do
sr. Contente. Vejamos:
"-Não, não sou religioso. Nem crente sou. Sou, no máximo, agnóstico."
A mim não me faz diferença: sê o que te apetecer. Adiante.
"-De facto, existem muito fundamentalismos."Sem dúvida: basta ler o resto do comentário para termos mais uma prova disso.
"-Mas penso que culpar a religião de todos os males do Mundo é ser-se ignorante. Muito ignorante."Claro que sim, se se generalizar essa expressão ao ponto de dizer "
dói-me a cabeça, a culpa é da religião" ou "
os preços da netcabo são ultrajantes, maldita religião". Mas se se olhar para uma questão global e para a história da humanidade, terei que gentilmente discordar. Até podia explicar, mas é por causa disso que há gente a escrever livros e a investir anos de vida.
"-É conversa oca e, permitam-me, pouco inteligente."Bom, desde já fico feliz por saber que há alguém que também leu os trabalhos destes pensadores e que os consegue contrariar. Muito bem, sim senhor.
Não me passa pela cabeça que este sr. Contente esteja a dizer que isto é conversa oca e pouco inteligente só pelo aspecto dos senhores ou pela capa dos livros. Seria a mesma coisa que aquele padre que disse que o "Império dos Sentidos" era uma vergonha... porque lhe contaram.
"-Exacto, pouco inteligente, que é o que os arrogantes dos atus chamam aos crentes."Agora fiquei baralhado. Estes atus que referes são os ateus? Então tens conhecido ateus muito mal-educados, deixa-me que te diga. Mas, já que generalizas, gostava que me explicasses porque é que os ateus, ou atus, ou atuns, são
arrogantes. Por isso, vejamos o resto da dissertação:
"-Já conheci crentes modestos. Ateus? Não, são sempre autoritários, armados aos cucos."Lá está, confirma-se que tens andado com más companhias, mas gosto da forma como dizes que já conheceste crentes modestos, o que dá um sentido de minoria à coisa. Mas é um pouco verdade: os ateus andam por aí um pouco armado aos cucos. E autoritários, especialmente quando dizem
é nisto que eu acredito, lamento. Rais'parta o moços, que se recusam a ajoelhar perante a glória divina! Foi este mesmo autoritarismo que os levou para a fogueira da inquisição e, mesmo assim, os tipos não aprendem!
"-Esse Dawkins deve estar louco: eliminar a fé? Como? É como eu querer eliminar a paixão. São coisas não-materiais. Ridículo."Tenho um vizinho que diz a mesma coisa. E prometeu rezar pelo Dawkins aos seus 24 deuses (ele é politeísta). Aliás, quando eu lhe disse que, se calhar, não fazia muito sentido a crença dele, de que existe um deus para o fogo, um deus para a chuva e um deus para o iogurte, ele respondeu: "
E que queres tu que eu faça? Não os posso eliminar da minha fé: os meus deuses são não-materiais, por isso não os consigo eliminar. Seria como eliminar a paixão, é ridículo".
Por isso, cada vez que troveja e ele, em temor, sacrifica um cordeiro, uma galinha e um porco, eu calo-me e não digo nada.
"-Carlos Moura, vai ler livros, pá. Ou ver vídeos no You Tube, que é o que agora toda a gente faz."Obrigadinho, pá. Vou, sim senhor. E vou satisfeito na minha vidinha, porque estou tranquilo.
Eu tenho o direito de acreditar, ou não, no que eu quiser. Como tu. Como todos. E, tendo amigos crentes, agnósticos e ateus, respeito-os. Aliás, admiro mesmo quem consegue ter fé. Só me chateia é essa atitude, que alguns insistem em ter, de, assim que ouvem a palavra ateísmo, dizer "vai mas é plantar batatas". Ou "ver vídeos do YouTube".
Eu compreendo esta alergia. Alguém que se afirma ateu ainda é visto como alguém sem moral. Uma coisa não implica a outra, como é óbvio, até porque a maioria dos tipos que eu conheço com baixos valores morais e sem a miníma consideração pelo respeito humano são altamente religiosos.
Mas cada um é cada qual.
Agora, em relação a este blog, posso dizer mais uma vez que não é um espaço democrático. Quem não gosta, pois que não leia.
E continua de portas abertas para católicos, ateus, satânicos e muçulmanos.
Só me chateiam gajos como este, os senhores contentes deste mundo, para quem a sua verdade é a que conta e as ideias dos outros, se forem diferentes, são sempre alvos a abater. Isto sim,. é fundamentalismo: "
se não pensas como eu, és arrogante, autoritário e ridículo. Deixa de te armar aos cucos e vai mas é ler livros, pá. Ou ver vídeos no You Tube, que é o que agora toda a gente faz."
Obrigado, sr. Contente. Foste um bom exemplo.