Sentou-se junto ao parapeito antigo, onde a madeira espreitava por baixo da tinta plástica branca, e deixou o olhar repousar sobre Lisboa, sobre os telhados, nuvens, o rio ao fundo e as folhas de figueira que ondulavam (simétricas) ao sol de fim de tarde.
Daquela janela daquele prédio velho daquela rua velha daquela velha cidade, a paisagem nunca era a mesma. Todos os dias mudava, mas mudava em pequenos pormenores, pormenores gentis, delicados, como aquele gato que ontem era branco e aquela chaminé que ontem parecia não estar ali.
Lisboa, vista de cima, não tem pessoas. Tem telhas e antenas, mas não tem pessoas. No máximo, em dias de estufa solarenga, terá alguns turistas ali, no miradouro, ou ali, na esplanada da varanda do hotel, mas não tem gente, gente de carne e osso lisboeta. Lisboa, vista de cima, tem prédios e janelas fechadas, ou abertas mas vazias, mas não tem homens nem mulheres a sorrir, ou a pensar, ou a fumar, ou a olhar as nuvens o rio e as folhas de figueira. E é aí que Lisboa está longe do Porto. Porque o Porto pode não ter aqueles turistas do miradouro ou aquele gato preto que ainda ontem era branco, mas tem olhos e ombros e cabelos e queixo. Olhe-se de onde se olhar, o Porto é gente. O Porto é rostos e janelas abertas com pessoas a espreitar ou então a adivinhar pessoas que, não tarda nada, virão espreitar.
Chamem-lhe cinzento e falem da luz, mas para que serve uma cidade cuja luz fantástica procura gente e não a encontra?
Encostado ao parapeito, preparou-se para uma última vista de olhos.