A dúvida


Está novamente em cena, no teatro Maria Matos, "A Dúvida", de John Patrick Shanley. Com encenação de Ana Luísa Guimarães, a peça foi galardoada com os prémios Pulitzer e Tony, e conta com interpretação de Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo.
Com uma cenografia modular bastante interessante e um trabalho admirável dos actores, para conter e deixar passar apenas a informação necessária, a peça marca uma posição muito interessante na programação do Maria Matos. Torna-se cada vez mais claro que este é um teatro que quer fazer pensar, promover a discussão. Disso não restam margens para dúvidas.
O texto é óptimo, os actores servem-no com mestria e justifica totalmente uma ida ao MM.
Aproveitem estas duas semaninhas, se ainda não viram a peça, para lá irem, e deliciem-se com a grande Eunice Muñoz e o excelente Diogo Infante.
E depois não venham dizer que não se fazem coisas boas neste país.

Já agora, era de pensar uma reposição do "Pillowman"...

Policarpo polifónico

O Cardeal Patriarca de Lisboa, José Policarpo, afirmou na homilia de Natal que o afastamento de Deus, ou o seu esquecimento e negação, constituem "o maior drama da humanidade".
Segundo este cavalheiro, "Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade, que tiram todo o sentido ao Natal, que é a exultação e o grito de alegria e de esperança que brotou do reencontro do homem com Deus"
Ou seja, segundo as palavras deste opinion-maker adornado a ouro e habituado às regalias que o seu cargo lhe oferece no polvo católico, esqueçam os conflitos bélicos gerados pela fome de petróleo e pela discussão de que o meu deus é melhor que o teu, além da pobreza, da fome, da SIDA, aquecimento global e até mesmo o preço da PS3.
Esqueçam.
Segundo Mister Policarpo, o ateísmo é o maior drama da humanidade.
Que é como quem diz, estão a mexer no meu queijo.
Mais interessante ainda é a leitura nas entrelinhas de que o ateísmo é a perda de esperança. Esse é um argumento que os teístas estão fartos de usar, como se fizesse sentido. Mas já dizia o outro, a alegria de um crente está para um ateu como a alegria de um bêbado está para um sóbrio. Adiante.
Pelo meio, este macaco da selva católica ainda teve o descaramento de meter o dedo onde não é chamado, fazendo questão de dizer que "não é a ciência que redime o ser humano", numa tentativa curiosa de afastar os seus crentes do pensamento científico...
Enfim. No meio do bolo-rei da televisão natalícia, eis a fava.

Um dia, algures no futuro, haverá gente a olhar para esta gravação e a rir da mesma forma que hoje nos rimos quando vemos os xamãs das tribos aborígenas a dançarem aos deuses para que venha chuva. E nessa altura, alguém há de colocar a pergunta: como é que aqueles tipos conseguiam ter naves espaciais, comunicações digitais e sabonetes líquidos... e ainda aturavam aquilo?

Post-it

Boas festas e tentem não se matar na estrada.

A última ceia


Cliquem na imagem para verem no tamanho original...

Au Revoir 2007

É assim, num piscar de olhos e sem sequer pedir licença, que o ano 07 deste século XXI chega ao fim. Puf, já foi.
Mas o ano despede-se com um balanço interessante e, apesar de poder não parecer, foi um ano marcante.
Foi o ano em que Portugal esteve nas bocas do mundo, fosse em busca da Maddie, fosse pelas cimeiras europeia e africana.
A Califórnia queimou até ao tutano, o Brasil assistiu em São Paulo ao maior desastre da história da sua aviação e Harry Potter despediu-se dos fãs (será mesmo?) com o último livro da série.
A ciência respirou de alívio ao finalmente conseguir "semear" células estaminais em laboratório, naquele que certamente será um dos mais importantes progressos médicos dos próximos 100 anos.
O mundo começou a despertar para o Darfur e para o aquecimento global.
O euro ultrapassou o dólar - e agora sim, os norte-americanos começam a perceber que a Europa está a falar a sério.
Foi o ano em que perdemos Ingmar Bergman, Marcel Marceau, Sidney Sheldon, Luciano Pavarotti, Boris Yeltsin.
Foi o ano em que a RTP ultrapassou a SIC, culminando na saída de Penim e sua substituição por Nuno Santos.
A Apple lançou o seu iPhone e cientistas descobriram que não só os chimpazés têm melhores reflexos de memória que os humanos como também sabem somar.
Entre a Ota e Alcochete, andámos aos saltos com as taxas de juro, fecharam-se maternidades e começámos finalmente a retirar tropas do Iraque e Afeganistão, onde o ano foi o mais sangrento desde 2001.
Os irmãos Cohen filmaram "No Land for Old Man" e relançaram a sua carreira brilhante, os Radiohead lançaram "In Rainbows" e reinventaram o mercado discográfico, os Led Zeppelin renasceram do mundo dos mortos e os Xutos continuam a bombar.
Quanto ao ano de 2008... bem, estamos apenas a um ano do balanço...

No comments

...só para relembrar alguns visitantes que os comentários neste belógue estão sujeitos às seguintes 3 regras:

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2. comentários assinados só serão publicados se me apetecer
3. sempre que me apetecer, inventarei mais regras

Ah, o doce prazer do lápis azul da censura!

O Cavaleiro Negro

Com este frio, o melhor é prepararem-se para o verão de 2008. Cristopher Nolan está de regresso com as aventuras do morcego em "The Dark Knight" - com o mesmo elenco de luxo. Christian Bale continua como senhor Batman...

Agora, além do batmobile, temos uma motinha... Esta:

Mas a maior sensação do filme parece mesmo ser Heath Ledger, que encarna o melhor Joker até à data (dizem):

O primeiro trailer já está a circular:

Quem é amigo, quem é?

Redacted

Vem aí o novo filme de Brian de Palma, "Redacted". Afinal de contas, a realidade é o que acontece ou aquilo que pensamos que acontece?


Poucas coisas parecem mais interessantes que um estúdio vazio e apagado.



Plateau da Operação Triunfo. É grande. Mesmo.

Afinal é mesmo Natal










...Nuno Santos é o novo director de programas da SIC.

1º Poster Oficial do Prof. Indy

Tenho que admitir que pelo menos o poster mantém o bom aspecto dos anteriores:

Vá, cliquem com o botãozinho na imagem para ver a coisa em tamanho decente...

Posta 795

Desperdiçamos tudo demais.
O tempo escorre-nos pelos dedos e olhamos sempre para a mão errada.
Desperdiçamos tempo, energia e possibilidades.
Andamos perdidos a maior parte do tempo e só nos apercebemos disso quando o tempo já passou.
Trabalhamos para ganhar dinheiro para manter uma vida em que possamos continuar a trabalhar. É mais que um círculo vicioso, é um círculo imbecil.
Diziam-me no outro dia que trabalhar é anti-natura.
Pois é.
E, pior que isso, é normalmente castrador.
O ser humano comum do chamado primeiro mundo (e nem vamos para outras zonas do hemisfério sob risco de desespero) passa em média 8 horas por dia, sete dias por semana a esforçar-se para garantir um só dia de 8 horas de lazer. Vendo as coisas até numa perspectiva mais optimista, estaremos sempre a falar de 40 horas de submissão ao sistema para garantir entre 8 a 16 horas de suposta liberdade individual. 4 para 1, ganha o sistema.
Dirão alguns, claro que é assim, senão toda a sociedade se desmonoraria como um baralho de cartas. Claro que sim, e dou-me por conformado com essa obrigatoriedade.
Mas o que me preocupa não é o finalmente, é o entretanto.
Porque, entretanto, enquanto vamos para casa e nos preparamos para regressar ao emprego, desperdiçamos. Demais.
Ainda recentemente publicava aqui neste blog uma frase belíssima: "A vida não é sobre descobrirmos a nós próprios, é sobre criarmos a nós próprios." Criar. Construir. E cada instante que passa é uma hipótese para essa construção e, na maioria das vezes, na maioria dos casos, é uma hipótese desperdiçada. Ou muito pouco aproveitada.
Perdidos?
Deixem-me ser mais claro, e a melhor forma para isso é recorrer a exemplos.
Exemplo um.
Um conhecido meu diz-me que tem pena de não ter tempo para ler. Passado pouco menos de 15 minutos, diz-me que tem seguido com entusiasmo várias séries televisivas. Acrescenta logo de seguida que, na noite anterior, por falta de programação devida na televisão, foi passear na net e descobriu um site fantástico sobre miúdas em bikini. E aparentemente molhadas. I rest my case.
Exemplo dois.
Como sabem, estou desde há mais de um ano a contribuir com um grupo de comediantes cá na zona, O Sindicato. A ideia é simples: conjugar esforços para permitir que o stand-up ganhe força nos chamados circuitos de bares, ao mesmo tempo que permite a troca de experiência entre comediantes. Á partida, um potencial explosivo. Imaginem o que é juntar os melhores músicos de uma zona e permitir que trabalhem juntos, seria mais ou menos essa a premissa. Resultados? Se é certo que a evolução começa a ser visível, que o grupo tem vindo a ganhar força, também é certo que é nas melhores alturas que a natureza humana mostra as suas falhas. O grupo não atinge um quarto sequer do seu potencial esperado: a cada dois passos para frente eis que surge um para trás, ora por pequenas birras, faíscas de egos (não chegam a ser conflitos), apatias incompreensíveis e ausência de cooperativismo. Por mais que se tente passar a mensagem, poucos são os que percebem que para haver sucesso em grupo tem que haver sacrifício individual. Ou só percebem quando convém. A fórmula que poderia dar início a um dos maiores e mais prolíficos grupo de humor deste país arrasta-se num estado de evolução lenta e mastigada. Até hoje, raras são as vezes em que algum dos elementos puxa pela corda, promove uma ideia ou instiga um encontro para procurar novos caminhos. Pelo contrário - as únicas vezes em que se promove encontros do grupo é para resolver problemas ou aliviar a dor de cotovelo de alguém.
Mas não tomem este exemplo como amargo de boca, porque apesar de o ser, serve apenas como exemplo, e se tivesse que fazer o mesmo em relação à produtora onde trabalho seria certamente um texto semelhante.
É comum à maioria das organizações, este estado de falso conforto e conformismo.
Adiante.
Exemplo três.
Já para não falar do pessoal que mora num raio de 5 km's da minha casa, tenho que vos falar de malta que mora a 300 km. Malta com trabalhei várias vezes em palco e fora dele, com partilhei expectativas e desilusões e que, apenas por uma distância (de merda) se deixa cair num esquecimento. Chateia quando nos apercebemos que deixámos de falar com tanta gente e que a culpa nunca é solteira.

Andamos demasiado entretidos com futilidades, hábitos e círculos viciosos.
Esquecemo-nos com excessiva frequência que na maioria dos casos a única coisa que nos impede de avançar é a ausência dos nossos próprios passos.
Não se enganem: estamos em tempos de mudança. E podemos fazê-la, em todos os campos, em todas as áreas, desde uma insignificante comédia de palco a uma neurobiologia, de um quadro numa parede à economia mundial.
Sabemos que estamos a dar cabo do planeta, fazemos ar de triste e seguimos sem mudar.
Culpamos os outros, sempre os outros.

A mudança, mudança de vida, mudança de mentalidades, mudança de mundo, está onde sempre esteve - na nossa mão. E continuamos a olhar para o umbigo.
É urgente olhar para as nossas próprias mãos e dar-lhes um uso significativo.
Se nos impulsionarmos a nós próprios para a frente, arrastaremos sempre alguém, até arrastarmos o mundo.
Falta-nos impulso.
Falta-nos o desconforto da descoberta.
Estamos convencidos de que estamos a evoluir mas continuamos a ver o mesmo filme, sentados na mesma cadeira.
Falta-nos mudança, sede, fome, garra, pressa.
Falta-nos ter mais medo da morte.
É urgente ler mais. Escrever mais.
É sempre urgente ligar a alguém e dizer lembrei-me de ti.

É urgente criar acção para que haja reacção.

Temos que fazer mais, mais alto, mais forte.
Ler mais livros, ouvir mais músicas, fazer mais amor, correr mais depressa, sorrir mais vezes. Perder o medo de caír no rídiculo, saber que tudo é efémero, compreender que uma hora pode valer um dia, que um dia pode passar como uma hora, mastigar crú, bater no fundo, magoar a pele, ferir as mãos, olhar de frente para o sol, abraçar, beijar, abraçar, empurrar.
Temos que ouvir mais pessoas. Temos que provar coisas diferentes, queimar a língua, dançar à chuva, apanhar constipações, aprender as regras, quebrar as regras, criar as regras, criar novas réguas, tirar novas medidas, construir novas bússolas e perder o norte. Temos que sair do conforto da casca e dar tudo por tudo e saber que vai valer a pena mesmo que não funcione porque não há nada mais saboroso do que dar tudo por tudo.

Temos que sentir mais o medo da possibilidade de errar.
Temos que errar mais. Muito mais.
É a única forma de garantir que estamos a evoluir, a tentar e a descobrir.
É a única forma de garantir que que estamos no bom caminho.

Bollywood

Os indianos, além de caril, são especialistas em filmar cenas nunca antes vistas no cinema:

Last recuerdo



É esta terça-feira, sim senhor, e é mesmo às dez da noite. E sim, a entrada é de borla. Conselho de amigo: não cheguem em cima da hora que os lugares não são muitos e costuma encher.

Mais um breve conto

O som aquecido pela madeira do velho rádio Philips da cozinha inundava o corredor vazio, fazendo ondular entre paredes o chorar das guitarras portuguesas de fados antigos, fados velhos, fados bons.
Sentada na cadeira escura, assento palhinha, mãos nos joelhos e olhos na rua, a velha Luísa suspirava contra a janela do quarto de costura, um quarto onde já nada se costurava excepto um ou outro botão foragido e alguma meia vazia de pé e vazia de tecido, furada pela fraqueza, pelo cansaço, pela fadiga que é passar os dias encurralada numa pantufa, encostada à parede junto à janela, à espera que a velha Luísa se mova, que a velha Luísa se desloque para outro hemisfério do apartamento porque meia que é meia foi feita para descobrir o mundo e não para sufocar em calçado ortopédico de trazer por casa, por mais confortável que seja, em infindáveis manhãs e tardes e dias de espera.
Porque espera Luísa? Que tanto aguarda esta velha torcida e balbuciante, esta velha que já não cose toalhas de linho, que já não esgrima a agulha, que já não duela com a tesoura?
Os dias de confortáveis passaram a estéreis.
As flores na cómoda, outrora coloridamente viçosas, foram desmaiando para um castanho rugoso.
Até os cortinados, que costumavam bailar pelos ares ao mínimo alarme de brisa, repousam agora moribundos, acossados pelo ar estagnado do apartamento fechado.
A velha fala de vez em quando. A Morte anda por perto, diz ela, rodeia-me a casa, espreita pelas frinchas e quando não estou a olhar bate à janela e chama o meu nome através do vidro, não a vejo, nunca a vejo, mas sinto-lhe o bafo frio, ouço-lhe a voz, sinto o seu manto negro na sombra que súbito desliza pelo tecto, como agora, vês?, viste?, era ela!, viste a sombra?, era uma mão era um braço era ela por inteiro que me rodeia a casa e não me dá descanso. Ás vezes, quando não estou atenta porque cozinho, porque como ou porque durmo, sei que mexe na minha caixa do correio, revira as cartas e cheira os envelopes, acho que anda a ganhar coragem para me escrever uma carta, um aerograma, um recado que seja, uma linha numa folha a dizer luíza vim para te buscar, assim, luíza com z e letra miúda que a Morte a escrever escreverá como em tempos antigos e para ela todos nós somos arraia pequena de letra minúscula. Todos os dias espero por seu recado mas nada. Porventura calha de a Morte não saber escrever por ninguém lhe ter ensinado em vida, calha de porventura nunca ter tido vida, calha de ser assim e será pior, qualquer dia perde a paciência e arromba esta porta com a foice e colhe-me de surpresa dizendo Olha era para te escrever a avisar mas foi-se, não mo ensinaram em vida e foice, vim para te buscar e pois aqui estou e assim tem que ser.
É por isso que aqui aguardo, explica a velha. Para que a veja. Para que me veja. Para que a consiga olhar no escuro do manto e dizer Escusas deixar recado ó Morte, ouvi-te os passos. Sei que aqui rondas, sei que aqui andas. E estou pronta.

Atenção madrugadores

Amanhã, sábado, vou estar na Antena3 no programa Nuno&Nando, com Nuno Markl e Fernando Alvim, a partir das dez. Quer dizer, já estive: o programa foi gravado na quarta-feira. Se por algum milagre já estiverem acordados, ouçam. Ou não, se tiverem bons cd's em casa.

Paciência

É um dos grandes compositores brasileiros da actualidade e, um pouco para repor justiça e tentar limpar o crime que o João Pedro Pais e a Mafalda Veiga lhe fizeram, aqui fica a versão original. A versão limpinha. A versão certa:





Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...


Mesmo o que eu queria!!!


"Um disco duro de DEZ MEGA?!!! Ena, pá, vale mesmo a pena o investimento! É coisa para durar a vida inteira!"