Richard Pryor (1940-2005)




O Nuno Dias, visitante assíduo desta casa, sugeriu recentemente num comentário que se fizesse referência neste belógue ao falecimento de Richard Pryor. Em boa hora, aqui seguem as honras merecidas.

Da pobreza de Illinois ao glamour de Hollywood, do abandono da mãe ao reconhecimento do mundo, a vida de Richard Pryor é um relato de dramas, tragédias, excessos. E muita glória.

Eleito pela Comedy Central como o melhor comediante stand-up de todos os tempos, Pryor alcançou na comédia o que Sinatra alcançou na música. E provavelmente graças a uma vida marcada pelo drama - afinal, é a tragédia o que gera a comédia...

Filho de uma prostituta, cresceu num bordel gerido pela avó - uma infância marcada pelos maus tratos, abusos sexuais e pelo abandono da mãe, aos dez anos, que traçou o pano de fundo para uma vida de tragédias pessoais, excessos de drogas e àlcool, fantasmas que o perseguiram por toda a carreira.

Carreira que, curiosamente, começou com um desentendimento na sala de aula, durante o secundário. Farta de o ouvir a lançar piadas na sala e destabilizar a turma, uma professora convenceu-o a permanecer calado durante a aula em troca de uma hora semanal de show cómico para a turma. Da sala de aula passou para o auditório da escola e daí para bares e clubes de comédia.

Na década de 70, após uma ausência de dois anos, Pryor explode nos palcos como uma bomba com linguagem pesada e conteúdos violentos, incomodando a América com observações raciais e sociais nunca antes ouvida.

White folks do things a lot different than niggas. They eat quieter. Pass the potatoes, thank you darling, could I have a bit of that sauce. How are the kids coming along with their studies? Do you think we'll be having sexual intercourse tonight? We're not? Well, what the heck?

Apesar de censurado e duramente criticado, entra nos anos oitenta como o comediante mais bem pago no mundo do cinema, numa das mais promissoras carreiras alguma vez vista no mundo do espectáculo. Mas, por trás da cortina, Pryor navegava em àguas agitadas, com amizades e paixões violentas, afogado no vício do àlcool e da cocaína.

Fora de palco, a vida de Pryor era uma manta de retalhos, com cinco ex-mulheres, oito filhos, dois ataques cardíacos e um bypass triplo. Em Junho de 1980, num estado de demência e desespero suicida, regou o próprio corpo com cognac e tentou imolar-se, resultando em queimaduras em mais de 50% do corpo. Este episódio marcou a onda de mudança. Pryor desapareceu durante dois anos, viajou até África e voltou em grande.

Em 82, assinalou o regresso com Live on the Sunset Strip, uma das actuações mais aclamadas na história da comédia.

Em 86 foi-lhe diagnosticado esclerose múltipla mas, com o seu espírito de lutador, Richard Pryor continuou a trabalhar em todos os media, numa das maiores carreiras que algum comediante alguma vez teve (vejam o resumo no IMDB). A sua última aparição no grande écran foi em 97, no Lost Highway, de Lynch.

Na noite de 9 de Dezembro de 2005, o coração de Pryor desistiu dos palcos. Saiu como sempre: com muitas, muitas palmas.

Até sempre, nigger.

2 comentários:

karmatoon disse...

É fodido, não sei se lhe dê uma última lágrima de riso ou de comoção...

Nuno Dias disse...

Obrigado! ;) E por akaso até acertaste no "visitante assíduo desta casa"! :P