Coração versus razão

No último post (desabafo) que fiz sobre esta história do referendo, surgiu um comentário interessante de uma muy nobre visitante deste belógue, em que se colocava uma questão deveras interessante.
É um argumento que se costuma ouvir várias vezes, em assuntos que exigem decisões difíceis ou complexas.
É o argumento do "ouve o teu coração".
Eu acho muita piada a esta coisa do "ouvir o coração", especialmente quando acompanhada por "esquece a razão e não penses, o teu coração dir-te-á o que fazer".
Pelo que me parece, esse é o pior caminho a tomar.
As emoções não são de fiar. As emoções são um conjunto de reacções, recordações, influências, desejos, projecções, traumas e associações, temperadas num banho hormonal e instintivo. São de se saborear mas não de se fiar.
As emoções levam os seres humanos a fazerem coisas belas. Mas também coisas péssimas e, infelizmente, essas acabam por ser a maioria. Guiado pela emoção, o ser humano é capaz de fazer um Taj-Mahal mas também milhares de guerras. Pela emoção, o ser humano aventura-se na maior loucura mas também perde a sua maior arma, a razão.
No que toca a estas decisões, não gosto de me levar pelo coração.
Posso me orientar pelo instinto, posso na maioria das vezes deixar-me até guiar pela "sensibilidade" (o popularmente chamado feeling), mas acredito que quem deve mandar é a razão.
Sejamos racionais - pode soar a crú, mas é a nossa maior e verdadeira vantagem como animais que somos.

6 comentários:

zeni disse...

Hoje o teu blogue está no centro das minhas bloguisses!

Souberam-me bem estas tuas palavras, sobre coração vs razão.

Tenho vindo a aprender a identificar e isolar as emoções, para conseguir ouvir a razão. São como as minhas duas pernas, a esquerda e a direita, e eu preciso das duas. Quando uma quer andar mais do que a outra, perco o equilíbrio ou fico parada...

Anónimo disse...

Uma pergunta (claro, respondes se quiseres):
Com base na razão, sabes o que é sentir tristeza e alegria genuína?
Eu acreito que a razão deva prevalecer, mas nunca deixar de lado as emoções, porque senão a vida torna-se fria e vazia.
Delfim Castro

Salseira disse...

Carlos,

Concordo que as emoções nos podem levar a tomar as melhores atitudes assim como as piores.

Para ti pensar com o coração é confiar nas emoções que, por sua vez, não são fiáveis.Porque "As emoções são um conjunto de reacções, recordações, influências, desejos, projecções, traumas e associações, temperadas num banho hormonal e instintivo."

Concordo com isto mas então, quando raciocinamos usamos o coração tanto quanto a cabeça. É que nunca nos conseguimos dissociar das nossas experiências, dos nossos valores, das nossas póprias ideias, da nossa percepção muito pessoal da realidade.

Sendo assim o coração está lá sempre. Eu, por mim, confio cada vez mais na intuição e, cada vez mais, sinto que ela me leva onde quero ir. Ou será o coração? :)

Carlos disse...

Salseira: malandra. No fundo, já percebeste onde é que estou a fazer bluff. Ou não. Lembra-me de nunca jogar poker contigo.

Delfim: é claro.É lógico.

Minha gente, não façam uma leitura tão estreita do que eu escrevo. Se eu fosse anti-emoções, como poderia fazer comédia?

Eduardo Ramos disse...

- Vamos lá fazer uma lei sobre o aborto.
- Está maluco? Depois queres dedos a apontar para ti o resto da vida?
- Pois. Já sei fazemos um referendo. Assim a culpa passa a ser de todos os Portugueses.
- Boa! Tens razão!

Anónimo disse...

Foi dificil achar o caminho para aqui! Não é que ia sempre ter ali? Mas não podia deixar de vir cá ler estas coisas sobre o coração!

Sabes, Carlos, é que isto de corações... há muitos! É como os chapéus! O que cabe no meu peito, pode não caber no teu, e vice-versa!

Ora com a razão, é a mesma coisa! Isto de eu confiar mais no coração do que na razão, é no fundo um reconhecimento de alguma incapacidade cognitiva...

Daí que quando tenho de descobrir coisas importantes, em vez de me pôr a pensar muito nelas (em que não chego a nenhuma conclusão), "mergulho" dentro de mim, até me libertar de todos os argumentos e razões, de todos os raciocinios e experiências, e... "plim", de repente faz-se luz, e eu regresso segura de mim e das decisões. Poderão até nem ser as correctas... mas são as que me permitem estar em Paz comigo. Estas são as conversas que o meu coração tem comigo, muito mais do que eu com ele, pois para o ouvir tenho de estar calada. Mas não tem muito a ver com emoções... as minhas emoções, são muitas vezes negativas, sei lá, raiva, ciúme, e outras coisas, mas vêm de outro sítio qualquer... deve ser do fígado, não se costuma dizer "fulano tem maus fígados"?

Pois em mim o coração e o fígado andam sempre às avessas!

Parabéns pelo blog, não conhecia e é giro! Vou passando por cá!

Helena