Memória Curta


Esta eu não podia deixar passar; tive que vir até aqui deixar umas linhas sobre a escolha, ontem na RTP, de Salazar como o maior português de sempre. Segundo o programa, esta foi a decisão de pouco mais de 200 mil espectadores (ou chamadas, se preferirem), num programa de entretenimento que acabou por reabrir algumas velhas feridas lusitanas. Embora me apetecesse sair à rua com um saco na cabeça, acabei por decidir pensar racionalmente sobre a coisa. Certamente virão por aí muitas análises de muitos analistas muito especialistas nestas coisas de fazer leituras sobre estes fenómenos, mas aqui vai uma visão pessoal sobre a coisa.
Existem duas respostas possíveis para este resultado.

1º O resultado não expressa a vontade do povo português
É a resposta de conforto. Pensemos na seguinte perspectiva: nem toda a gente estava a ver televisão ontem à noite, exceptuando 200 mil velhos do Restelo. O programa não conseguiu chamar a atenção generalista excepto a alguns fãs de Salazar que puseram toda a família a ligar em catadupa como se não houvesse amanhã. Ou seja, um resultado parecido com o primeiro refrendo ao aborto.

2º O resultado expressa perfeitamente a vontade do povo português
Uma das principais características do antigo regime era não promover a educação; o povo queria-se burro e manipulável, inculto. Uma política que ainda hoje se reflecte no que somos: um país de gente de curta memória, presa a dogmas ultrapassados, desconhecedora da realidade e do mundo. Por mais que custe a muita gente, Portugal é um país na cauda do mundo, na cauda do saber, na cauda da civilização, pouco longe de alguns redutos do terceiro mundo.
Somos muito menos do que gostaríamos de ser, por mais que o tentemos disfarçar com carros topo de gama, internet banda larga e lojas modernaças.
Salazar ganhou porque nos faltam líderes a sério, porque nos falta uma mentalidade una e globalizante, porque somos um país de reality shows e baixa literacia.


Escolham o lado que preferirem.

6 comentários:

Cris Avelar disse...

Realmente tens toda a razão. Se por um lado condenamos o antigo regime, por outro temos sempre a necessidade do regresso de um messias, ou melhor, de um D. Sebastião que ponha ordem neste país caótico.

Não me chocou esta eleição... choca-me mais a impassividade do povo português... é muto "manso" como se diz por aqui. Para falar mal são os primeiros, mas para agir, como dá muito trabalho, deixam-se ficar bem sossegadinhos... à espera que alguém se mexa.


Beijos para ti e para a mãe da caracóis..

Cris Avelar

Psantos disse...

Nem mais. Fui dos estupidos que com 6 anos fiz figura na estação da cp de Coimbra que viu passar salazar a caminho da campa. Premonição? Talvez! Mas Carlos, fazes parte dos que podem contrapor melhor programação, melhor conteúdo,melhor atitude. Força! Não devemos ficar agarrados ao passado, a nenhum tipo de passado. Apetece-me dizer que são os salazares que ajudam a puxar a economia para baixo. ou pelo menos os que pensam tanto em atrás que se recusam a olhar para a frente.
Mas deixa-me acrescentar, nem cunhal. Antes o Zé povinho como figura de sempre, incluindo do futuro, porque nada foi ou será possivel sem ele, sem mim ou sem ti. Como a TIME diz ter feito, façamos do Zé o nosso português de e para sempre!

Anónimo disse...

Carlos, por paradoxal que pareça, as tuas duas hipóteses não são mutuamente exclusivas.
Sim, o resultado não reflecte a vontade dos portugueses. Porque não é uma sondagem, não há verificação sobre a repetição de votantes, não se conhece o universo das pessoas que votaram, etc.
Por outro lado o resultado reflecte claramente um traço da personalidade dos portugueses.
A vontade de termos alguém que tome conta de nós.Que afaste, ou adie, mas raramente resolva os nossos problemas. tanto individuais como colectivos.
Esperamos sempre um homem providencial, um messias. Se isto deriva da nossa matriz cultural judaico cristã ou por e simplesmente de preguiça seria uma conversa bem longa. Provavelmente é uma combinação perniciosa de ambas.
Salazar ajudou a fortalecer e a manter um Portugal autista. Como depois os governos democráticos o fizeram através dos fundos comunitários.
Agora que eles terminam, é natural que nos deixemos tentar por mais um homem providencial. As eleições de Cavaco e Sócrates, são sintomáticas disso.
Tudo o que evite termos de nos confrontar com a realidade de termos de ser nós individualmente ou como sociedade a fazer isto funcionar.
Vale que ao mesmo tempo que desjamos que mandem em nós somos estruturalmente anarcas.
O resto desta serve para lamentar um concurso francamente tolo em que se comparavam coisas e pessoas incomparáveis em exercícios que roçaram muitas vezes a pura desonestidade intelectual.
E pensar que se o melhor que conseguimos produzir em quase um milénio foi um ditador como Salazar, boa merda de país somos.

Abraço carlos
Pedro Goulão
P.S: em relação à opção que ofereces fico portuguesmente em cima do muro

eloi disse...

Carlos, eu só acho que nos estamos aqui a esquecer de um detalhe: Nenhum dos outros nomes a votação granjeia tantos apoiantes - organizados - como o de Salazar (talvez apenas o de Cunhal)!... sendo assim, acho este resultado algo previsível!

Abraço,
eloi

Eduardo Ramos disse...

Isto só me faz suspeitar cada vez mais que neste Portugal vivem 60% de estúpidos com memória de peixe que não votam quando deviam e votam quando deviam estar bem quietos e calados!

Fábio Casulo disse...

"Salazar ganhou porque nos faltam líderes a sério, porque nos falta uma mentalidade una e globalizante, porque somos um país de reality shows e baixa literacia."

Concordo plenamente. Mas com Salazar no poder, podes ter a certeza que não havia reality shows nem nada desses programas de treta!
Falta-nos, sim, uma "mão forte". Não com ditaduras por favor!
Mas penso que este país só funcionaria melhor com mãos ditaturiais! (infelizmente)